Vôos científicos

Exposição em São Paulo mostra o lado designer de Santos Dumont que construiu, por exemplo, o primeiro ultraleve da história
(foto: Mariana Chama)

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Vôos científicos

12/5/2006

Por Eduardo Geraque

Agência FAPESP - Atrelar a qualificação de cientista ao nome de Alberto Santos Dumont (1873-1932), mesmo sabendo que ele nunca concluiu um curso universitário, não é um exagero. O mesmo vale para a palavra designer, como os visitantes podem notar na exposição "Santos=Dumont Designer", em cartaz até o dia 16 de junho em São Paulo, no Museu da Casa Brasileira.

"Santos Dumont seguiu uma trajetória bastante normal para os padrões do século 19. Sem uma formação convencional, adquiriu muitas informações com importantes professores da época. É inegável que ele, em todas experiências, baseava-se totalmente no método científico", explica o físico Henrique Lins de Barros à Agência FAPESP.

Além de consultor da mostra em São Paulo, o pesquisador do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF) é um grande estudioso da vida de Santos Dumont. Apesar de trabalhar em seu cotidiano científico com magnetismo, Lins de Barros publicou três livros sobre a vida e a obra do pai da aviação, que no dia 23 de outubro de 1906 fez história ao decolar, na França, com o 14 Bis – o nome é uma referência ao dirigível de número 14, usado como suporte para os primeiros testes do protótipo.

"É equivocado pensar que Santos Dumont não tinha nada para fazer e, de repente, decidiu fazer um avião, o que levou apenas três anos. Ele sabia muito bem o que estava fazendo, tinha muito conhecimento de tudo que estava ocorrendo na época em sua área preferida", explica Lins de Barros, que destaca, na mostra no Museu da Casa Brasileira, os dois principais aviões criados pelo inventor brasileiro dispostos em um túnel de vento feito por ventiladores.

Segundo o pesquisador do CBPF, que também se dedica à divulgação científica, o próprio Santos Dumont sabia dos defeitos que o 14 Bis tinha em termos de projeto. "Tanto é verdade que posteriormente ele resolveu fazer o Demoiselle, um modelo ainda melhor", afirma. Esse equipamento mais pesado que o ar foi o único a receber também um nome. Em francês, "demoiselle" tanto pode significar senhorita como libélula.

Para Lins de Barros, e outros historiadores da aviação, Santos Dumont, que ainda inventaria ou tornaria populares novidades que vão do relógio de pulso a uma inusitada casa em Petrópolis – canhotos precisam tomar cuidado ao subir as escadas, construídas apenas com o lado direito dos degraus –, fez o que seria o primeiro ultraleve da história.

"Em 1909, outro francês, Louis Blériot (1872-1936), conseguiu atravessar o Canal da Mancha, mostrando a importância militar dos aviões. Naquele ano, Santos Dumont apresentou seu último invento aeronáutico, o Demoiselle 20, primeiro ultraleve da história. Com apenas 115 quilos, diminuto, envergadura de 5,50 metros e comprimento de 5,55 metros, era acionado por um motor de 24 cavalos", conta Lins de Barros na cartilha Santos Dumont e a invenção do avião, disponível em www.santosdumont.14bis.mil.br/pdf/csdia.pdf.

Esse protótipo de número 20 se tornaria popular e seria reproduzido em escala comercial, com cerca de 200 cópias. Santos Dumont jamais registrou a propriedade intelectual de seus produtos. E, também, não teria morrido por desgosto, como diz a lenda.

"Provavelmente, ele vivia um quadro de depressão causado pela esclerose múltipla. Um quadro tão intenso e duradouro que, em 23 de julho de 1932, levou-o ao suicídio, aos 59 anos, num quarto de hotel em Guarujá (SP)", explica Lins de Barros.

Mais informações sobre a exposição em São Paulo: www.santosdumontdesigner.com.br


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