Agência FAPESP - O engenheiro Ronald Dauscha, formado na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, em 1983, completará no ano que vem 20 anos de Siemens, única empresa em que trabalhou. Em entrevista à Agência FAPESP, o executivo fala sobre diversos assuntos, especialmente a inovação tecnológica no setor privado.
Dauscha, que também é diretor da Associação Nacional de Pesquisa, Desenvolvimento e Engenharia das Empresas Inovadoras (Anpei), rebate a idéia de que as empresas multinacionais estão no país apenas para enviar royalties às matrizes, analisa as parcerias entre setor privado e universidades e como a questão da propriedade intelectual está sendo tratada pela Siemens, empresa que investiu R$ 70 milhões em P&D em 2002.
Agência FAPESP - As empresas estrangeiras do setor tecnológico que investem no Brasil estão interessadas apenas na emissão de royalties para o exterior?
Ronald Dauscha - Acredito que esse assunto deva passar por uma mudança de foco. Deve haver uma separação entre as empresas que fazem inovação tecnológica e as que não fazem. Nesse segundo grupo, não estão apenas as companhias internacionais. Muitas empresas brasileiras não fazem inovação tecnológica.
Agência FAPESP - Por que não fazem?
Dauscha - Não vou dizer que elas preferem que seja assim. São companhias que compram tecnologia do exterior por vários motivos. O primeiro é o desconhecimento, por não terem uma cultura tecnológica. Falta, muitas vezes, conhecer os processos para a obtenção de financiamentos. E, ainda, P&D é sempre arriscado, pois envolve algo que está sendo desenvolvido e que pode não ficar pronto. Muitas vezes, os empresários preferem pagar um pouco mais para ter tudo pronto. O ponto importante é que tanto as empresas nacionais como as transnacionais precisam fazer mais inovação tecnológica. Na Siemens, e em outras empresas como IBM e Motorola, existe uma postura de divulgar esses investimentos, para que outras empresas copiem um pouco, o que seria muito saudável.
Agência FAPESP - Como ocorre a transferência tecnológica nos projetos que a Siemens desenvolve aqui no Brasil?
Dauscha - Para entender o processo temos que retroceder um pouco no tempo. A Siemens introduziu mundialmente o conceito de grau de domínio, que funciona em uma escala que vai de um a oito. Todo o produto comercializado por nós tem que ter um objetivo, dentro desses parâmetros, para os próximos cinco anos. Se a idéia for ficar em grau de domínio baixo que, na verdade, siginifica simplesmente revender determinado produto que é feito em uma outra fábrica ou desenvolvido em outro país, é feito um planejamento. Agora, se o objetivo for evoluir no sentido de se fazer uma engenharia rotineira, uma customização, fabricação, desenvolvimento ou até criar um centro de competência, o caminho será outro. Isso é feito caso a caso. Nada impede, inclusive, que o grau de domínio seja descrescente. Hoje, o mercado de determinado produto está em alta, mas amanhã ele pode retrair. Nós retiramos investimento de uma linha e colocamos em outra.
Agência FAPESP - Nos casos em que vocês optam pelo caminho da geração de centros de excelência, como essa inovação é provocada em nível nacional?
Dauscha É importante lembrar que a Siemens elegeu dez centros excelência para as telecomunicações, entre os 190 países em que está instalada. O Brasil é um deles. Além disso, três quartos dos produtos comercializados por nós foram desenvolvidos nos últimos cinco anos. A correria é grande. Para que a tecnologia chegue até nossas unidades de negócios, temos que buscar o conhecimento gerado no país. Aqui entram as universidades, os institutos de pesquisa com seus vários departamentos e linhas de pesquisa. Também estamos em contato com inventores. Muitos nos procuram com suas idéias. Esses processos são de mão dupla. Quando a demanda nasce aqui dentro, em algum dos nossos departamentos, nós vamos ao campo tentar resolver esse problema. Temos ótimos engenheiros espalhados por todo o país.
Agência FAPESP - Qual é o tamanho dessas parcerias em inovação e desenvolvimento tecnológico?
Dauscha - Nós temos envolvidos nesse setor 250 especialistas, entre técnicos e engenheiros. Contamos com quase o mesmo número em colaboradores externos. Já fizemos 35 parcerias com instituições científicas e hoje 20 desses contratos estão ativos.
Agência FAPESP - Como vocês tratam a questão da propriedade intelectual nas parcerias com as instituições de pesquisa?
Dauscha - Caso a caso. Se a plataforma básica usada num produto é da Siemens, e ela procura alguém para ajudar a desenvolver alguma funcionalidade adicional, a propriedade fica com a empresa. Em outros casos, em que as idéias são trazidas por outros, pode ser que a patente seja deles ou, então, se alguma parte da nossa plataforma for usada no processo, nós, sempre em conjunto com os pesquisadores, podemos decidir por uma propriedade compartilhada.
Agência FAPESP - Quais são as experiências positivas em inovação tecnológica que a Siemens teve no Brasil?
Dauscha - Na área de telefonia fixa, com PABXs de pequeno e médio porte, todo o desenvolvimento dos equipamentos da empresa vendidos em todo o mundo é feito aqui no Brasil. Nós exportamos inclusive para os Estados Unidos. Conseguimos também montar uma equipe fantástica, altamente qualificada, em telecomunicações, após termos desenvolvido vários produtos para o grupo Telebrás, há uns 10 anos. Desde 1998, estamos investindo muito também em outras áreas, como eletromedicina, automação industrial e geração, transmissão e distribuição de energia.
Agência FAPESP - Na sua opinião, quais são as áreas tecnológicas mais promissoras?
Dauscha - Telefonia móvel é uma delas. A parte de aplicativos resultantes de telefones móveis é praticamente ilimitada. Estamos trabalhando também com redes de nova geração, com vídeo, voz e dados. Na área industrial, automação e controle também fazem parte de nosso foco. Em termos energéticos, a qualidade da energia e a forma de monitoração dela também deve gerar muitos negócios.
Agência FAPESP - O clima hoje no Brasil é favorável à inovação?
Dauscha - Sim. Aqui existe um ambiente muito propício, tanto do ponto de vista científico quanto do tecnológico. Temos excelentes universidades, institutos de pesquisa, toda uma infra-estrutura voltada para a inovação. Os indicadores mostram isso. A geração de artigos científicos é muito boa no país.






